21.2.06

Aprofundando o conceito de Democracia

“Para terminar com a pobreza, é necessário dar poder aos pobres!”
Hugo Chávez

Uma das grandes características do processo revolucionário na Venezuela é o aprofundamento da democracia no país. Além de transformar a constituição, implementar inúmeros programas sociais, recuperar e dinamizar a economia e implementar uma política externa agressiva contra o império, entre tantos outros logros, provavelmente um dos aspectos que mais impacto terá a médio e longo prazo neste processo gradual de construção da revolução é a participação popular protagônica das transformações radicais que vêm ocorrendo no país.

O que se vê nas ruas e o que se ouve nos bairros é uma pujança popular interessada e comprometida com a revolução. Obviamente que uma das maiores críticas que se escuta dos líderes comunitários e coordenadores de diversos comitês é justamente a falta de participação da comunidade nas coisas que dizem respeito a ela. Porém, se compararmos com a realidade brasileira, veremos claramente que são duas realidades de mobilização diametralmente opostas.

Nos bairros populares de Caracas, cada bairro, aqui chamado paróquia, é subdivido em setores (divisão feita com base na geografia), sendo que cada setor costuma ter aproximadamente duzentas e cinqüenta famílias. Em cada um desses setores existem diversos grupos que se encarregam dos diferentes “afazeres” da comunidade, por exemplo: comitê de saúde, responsável por grande parte dos assuntos relacionados com a saúde e seus equipamentos; comitê de terras urbanas, que é responsável pelo cadastramento e legalização dos terrenos de posse; mesas técnicas de água, que pensam as soluções para os inúmeros problemas relacionados à água na cidade; juntas paroquiais; comitê de alimentação, que se encarrega de organizar e administrar as casas de alimentação; círculos bolivarianos; e os conselhos comunais, semelhantes aos conselhos de moradores – os quais descreverei com maior detalhes um pouco mais à frente. Esse sistema de organização e subdivisão de tarefas, apesar de ter exemplificado somente o caso de Caracas, ocorre em todo o país.

Percorrendo os bairros com os promotores sociais, que são os profissionais da prefeitura que se encarregam de fazer a articulação na comunidade de todo tipo de política pública – que é proposta pelas diferentes esferas de governo – é perceptível a existência de muitas pessoas envolvidas na dinâmica social e no protagonismo comunitário. Estes profissionais são abordados permanentemente e interrogados por diversas questões relacionadas à realidade da comunidade, são marcadas reuniões de todo tipo e a impressão que se tem é que existe um alvoroço de mudança ocorrendo no âmago dos bairros, onde um grande corpo comunitário está envolvido direta ou indiretamente nos temas referentes à comunidade, envolvido política e socialmente com a revolução. Homens e Mulheres, mas principalmente mulheres, encontram-se e discutem temas de interesse comunitário: como pode ser a reforma da escada que dá acesso a um grande número de casas, o problema da água, o lixo, a entrada ou a saída de um médico, etc. Necessário dizer que nada se faz nas comunidades, pelo menos nas comunidades menos favorecidas, sem o apoio e a participação desses comitês e de coletivos organizados.

Os conselhos comunais

Eixo e estratégia para a distribuição de poder e riqueza nas comunidades (análogos aos conselhos de moradores brasileiros, no que diz respeito à composição de seus atores) são eleitos, em cada um dos setores, em assembléias populares que contam com a convocação de toda a comunidade. Estes conselhos estão ganhando uma força cada vez maior na dinâmica comunitária e são a grande aposta para a distribuição de poder na Venezuela. Há dois projetos importantes envolvendo estes conselhos atualmente no país: o primeiro, já em processo de implementação, é a distribuição de recursos financeiros diretos para estes comitês; e o segundo, ainda em fase de construção, é a criação de “bancos” para manejo destes comitês.

Foi aprovado recentemente a alocação de recursos para que estes conselhos tenham como administrar pequenas obras e realizações. Estes recursos provêm do superávit orçamentário de estados e municípios, que alocarão 50% desse excedente diretamente em contas correntes dos conselhos comunais, e uma quantia equivalente agregada pelo tesouro da união. Então, os conselhos comunais, setorizados dentro dos bairros, terão a sua disposição recursos financeiros para a realização de pequenas obras e construções para melhoria das condições de vida das comunidades diretamente envolvidas. Não há que se pensar nas grandes obras de saneamento, iluminação, etc., que devem ser feitas por outras entidades. Há que se pensar na realidade dos bairros populares, que são uma aglomeração de casas e moradias parecidas com as nossas, onde existem muitas e muitas pequenas obras que podem melhorar a vida desses moradores e que, se fosse necessário movimentar toda a máquina estatal para dar conta dessas necessidades, essas obras nunca se realizariam. Cada uma destas obras são propostas, discutidas e aprovadas nos conselhos comunais, sem interferência de outros atores.

O outro grande projeto é a criação de bancos comunais, onde serão fornecidos micro-créditos com juros muito baixos para pessoas da comunidade e créditos para viabilização de projetos comunitários. Estes créditos, a diferença do recurso próprio dos conselhos, é um empréstimo que tem que ser pago. Toda essa dinâmica é administrada em colegiado do conselho e os responsáveis legais são os próprios moradores que participam do conselho. O controle do destino dos recursos alocados para os projetos também é feito pelos próprios moradores, através do controle social.

O grande problema que se vê no horizonte é a corrupção! É sabido que esse tipo de dinâmica é passível de um grau de corrupção, que tende a não ser pequeno! Entretanto, a aposta que está sendo feita é que a comunidade organizada consiga ser controladora dos seus próprios recursos. É uma aposta, é um passo enorme na construção de um maior protagonismo social. Porém, não se pode deixar de atentar que este ano, ano em que se implementa concretamente esse projeto de distribuição de recursos para os conselhos comunais, é ano de eleição presidencial. E, para a manutenção do projeto revolucionário, é necessário que os Venezuelanos votem em peso para reeleger o atual presidente, Hugo Chávez Frias.

É tentar matar dois pássaros com uma cajadada só! Primeiro, o aprofundamento dos mecanismos de distribuição de poder e maior protagonismo social e, ao mesmo tempo, a conquista de eleitores que possam não estar totalmente em conformidade com os atuais passos que o governo revolucionário está dando
.

Dessa forma, o protagonismo social é um dos atores determinantes da articulação do Projeto Revolucionário, sem o qual não será possível o avanço do processo de aprofundamento e expansão democrática.

Revolução como projeto – Revolução como valor

"Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros". Ernesto Guevara de la Serna


Vivenciando e estudando o projeto revolucionário em curso na Venezuela é inevitável fazer análises de quais são as suas peculiaridade, as suas semelhanças e as suas diferenças com o nosso dia-a-dia no Brasil, ou em outros paises latino-americanos. Seja na política, na participação popular, na cultura, na vida das pessoas, etc.

Na Venezuela, está explicitamente acontecendo uma revolução. Mas o que é uma revolução? Como o povo venezuelano significa um processo revolucionário? Que definições poderíamos aplicar ao que se vive no cotidiano na República Bolivariana da Venezuela? Perguntas que surgem naturalmente, mas que são de difícil resposta – certamente as diferentes pessoas que possam estar vivendo ou conhecendo esse processo terão respostas também diferentes para o que está acontecendo neste país e para conceituar um processo revolucionário.

Arriscarei abordar o tema usando como base para isso a observação e o significado que este processo está imprimindo neste que aqui escreve.

A necessidade de transformar algo existe quando uma determinada situação, ou coisa, não está mais servindo para um determinado fim. Poderíamos aplicar isso desde uma simples mudança de móveis em casa, até a revolução de uma sociedade. O fato é que, se algo precisa ser transformado, é porque da maneira em que se encontra não é útil, não é “bom”.

Revolução poderia ser entendida como a possibilidade de transformar algo num pequeno espaço de tempo. Rapidamente e drasticamente. Ao contrário de uma reforma onde a transformação, por radical que seja, se faz de forma progressiva, não há processos rápidos ou drásticos, muito menos dramáticos. Entretanto, mesmo do objeto da transformação ser uma realidade concreta, o conceito também engloba os atores envolvidos no processo. Então, a diferença não é somente no processo em si, mas, também e sobretudo, na maneira como as pessoas envolvidas lidam com essa transformação, a maneira como se encara um processo desses.

Na Venezuela, o que está em curso é uma revolução. Estão ocorrendo mudanças dramáticas e extremamente profundas na sociedade. Desde a economia, passando por transformações sociais, incluindo o Estado, enfim, tudo é foco de transformações e mudanças – o que não é o objetivo explicitar neste texto. A revolução traz, para as pessoas que nela vivem, a possibilidade do protagonismo em uma transformação, a possibilidade de trabalhar em um determinado caminho e com um determinado objetivo; e, através deste fato, abrir a possibilidade de colocar atores sociais e políticos em ação, permitindo que trabalhem, que se movimentem, terminando com a inércia de se manterem imóveis e aceitando o que está imposto num determinado tempo e espaço. A sociedade venezuelana é uma sociedade que está imersa, encarando e trabalhando em um processo, que tem a revolução como um projeto e que usa essa denominação para atribuir valor ao que é feito.

O Projeto Revolucionário é peça fundamental para o engajamento e participação das pessoas como atores sociais e políticos. Através desse projeto maior, a revolução se transforma no projeto pelo qual se trabalha para transformar profundamente o país. Projeto geral que tem os objetivos de diminuir a diferença social entre as pessoas, distribuir riqueza, etc. E por ser um projeto geral no qual há muitas pessoas ativas e envolvidas, ele serve para trabalhar com duas grandes dificuldades que ocorrem na mobilização de um determinado grupo social: a falta de motivação para o engajamento no processo de trabalho e a dificuldade de resolver impasses naturais ao processo.

As pessoas, ao saberem que existe um projeto grande, A Revolução, sabem automaticamente que elas não estão sozinhas na labor de mudar o país, que não precisam fazer tudo, que não precisam “carregar o mundo nas costas”. Como é um projeto grande e há um grande número de pessoas envolvidas, muitas frentes de trabalho estão abertas. Além disso, como o conjunto da sociedade está participando, é mais fácil a participação do ator social para um determinado trabalho, já que cada um sabe que o outro também está trabalhando e que, por pouco que se faça, se está colaborando com todo um projeto que está em andamento.

O outro lado da mesma moeda é que, ao existir um projeto maior, um projeto que unifique o conjunto dos projetos menores, e que, ao mesmo tempo é diretor destes, no momento em que surge uma determinada dificuldade, impasse ou divergência, as referências para resolver este problema já estão dadas. O objetivo maior é concreto e palpável. Existindo uma referência de quais são os grandes objetivos e de onde se quer chegar, é mais simples resolver problemas e obter consensos. Existe uma referência superior e concreta ao “achismo” de cada ator.

Isso transforma o Projeto Revolucionário em um unificador de caminhos e em um conglomerador de pessoas.

No mesmo sentido, a Revolução se transforma em uma referência para além do projeto, se transforma em um valor que recebe depósitos de esperanças e vontades. Cria-se um ente revolucionário, um processo no qual, ou se está dentro, ou se está fora. Não há meios termos. Mesmo que não se concorde com a maneira como se está conduzindo o processo, há abertura para as pessoas que não concordam com os meios proporem caminhos diferentes. Mas, claro, é necessário que os valores e os rumos sejam os da mudança, os da Revolução.

Analisar isso do ponto de vista da disputa de classes é muito interessante. No momento atual, Chávez é a personificação do processo e dos valores revolucionários, contando com mais de setenta por cento de aprovação. Quem não aprova, pertence de maneira geral a uma classe média-alta e classe alta que estão vendo que o processo ameaça os confortos e as regalias que a antiga IV república sempre promoveu. Então, como não lhes interessam as mudanças, são contra o valor revolucionário. O que é justificado e aceitável do ponto de vista da compreensão da sua maneira de ver o mundo. Por outro lado, as classes populares estão apoiando maciçamente o processo. Porque mesmo que não concordem com a maneira como está sendo conduzido, coisa que é comum nas críticas, não podem negar a concretude de que suas vidas melhoraram. E, fundamentalmente, existe espaço para o protagonismo e para participação, existe espaço para se propor outras maneiras de fazer. Ou seja, a direção do processo, a direção na qual a revolução aponta é inegavelmente um valor que é compartilhado pela enorme maioria da população. Seus caminhos e trilhos é que estão em disputa, mas não seus valores.

Assim o Projeto Revolucionário é a concretização operacional desse valor.

Em outros paises latino-americanos onde não temos um Projeto Revolucionário explícito, tudo o que foi falado acima praticamente não existe. Não há união ao redor de um projeto, porque esse projeto não existe como tal, os valores revolucionários ficam restringidos nas individualidades e nas singularidades de cada um dos atores. Como não existe um mote unificador da direção, a dificuldade para resolver problemas, impasses e disputas é infinita. Cada um tem a sua opinião e estas opiniões não se unem por nenhum lugar. Não há motivação generalizada para trabalhar e para sair da inércia do imobilismo, porque não há concretamente pelo que lutar. A sociedade permanece quebrantada e extremamente subdividida, não há união na luta social, e, essa divisão, nos enfraquece permanentemente. É só olhar os processos eleitorais, onde é comum a dita esquerda aparecer freqüentemente dividida na figura de muitos candidatos.

É necessária a união da luta; é necessária a união do projeto; é necessária a unificação dos valores; é necessária A Revolução!

Um, dois, três milhões?

Não se sabe ao certo, o fato é que foi muita gente...

Há uns dias fiquei sabendo que aconteceria uma passeata, aqui chamada marcha, em comemoração ao aniversário de sete anos do governo revolucionário de Hugo Chávez. Quando recebi a notícia estava no ato oficial dessa mesma comemoração. Confesso que já tinha a intenção de participar de uma marcha, mas não atribuí, num primeiro momento, a importância devida a esta em particular.

Chegado o dia, quarto de fevereiro de 2006, me encontrei, como havia combinado anteriormente com José, um promotor social, na estação do metrô que fica em frente de “casa”. Lá chegando, um grupo de umas vinte pessoas de vermelho se aglomeravam esperando o restante do grupo chegar. Entre conversas e conversas, fui interrogando sobre qual era a motivação para tal disposição de marchar numa manhã gelada de um sábado ensolarado. Todos eram chavistas, cada um com uma camiseta diferente, mas todas vermelhas e todas de algum momento histórico do passado recente ou de algum movimento governista. Tietagem? Foi o que primeiro pensei. Mas fiquei com isso na cabeça...

Conversando com aquelas pessoas, fui entendendo que elas estavam lá para participar de uma festa, de uma grande festa popular, de um encontro de pessoas. Pessoas que estão construindo um país diferente, diferente do que haviam vivido no passado recente. Estavam lá para participar da defesa de um novo que não querem que desapareça. E tudo isso é simbolizado na figura de uma pessoa: Hugo Chávez Frias.

Fiz algumas gravações, iniciando a captação de imagens para a confecção de um ou vários curtas documentários. Neste momento transbordaram as manifestações pró Chávez, quase num frenesi como de uma debutante falando sobre seu ator preferido, porém em vez de “como é lindo!” e coisas parecidas, os argumentos eram os logros da revolução, contando vantagem sobre a erradicação do analfabetismo (Venezuela é o segundo país do continente, depois de cuba, a ser declarado território livre do analfabetismo pela Unesco), sobre a construção dos programas de saúde, etc.

Quando entramos no metrô, que diga-se de passagem foi gratuito naquele dia, começaram os gritos de guerra, tal qual uma torcida de futebol, entoando “Uh! Ah! Chávez no se vá”, “así, así, así es que se gobierna”, entre outros tantos. O trem inteiro cantando! A viagem até o ponto da concentração foi feita em dois trechos, um dos bairros populares para o centro e o outro no eixo central da cidade. No primeiro trecho, os chavistas eram “hegemônicos”, mas, no segundo, havia vários escualidos (assim são chamados os opositores a Chávez, geralmente pertencentes à classe media alta e classe alta), um contraste bem interessante de perceber: a cara de acuados e um certo temor de ver o “seu” território tomado pelo povo. De fato, não é comum ver num sábado de manhã uma verdadeira multidão lotando os metrôs...

A sensação que aquela situação passava era a de sentir o povo tomando conta de tudo, ocupando seu espaço! A quebra da barreira imaginária que é a geografia excludente da cidade!

Chegando no ponto de encontro, caí na real da dimensão dos futuros acontecimentos. Muita gente! Muita! Pessoas que de maneira geral traziam uma vibração e uma empolgação que seria necessário uma cegueira sentimental para não perceber. A rua em frente à estação do metrô já estava tomada, não passavam mais carros e a multidão se encaminhava, seguindo seu destino. Passavam e passam, surgiam das ruas que desciam os morros, vinham de todas as esquinas, de todas as partes, continuavam surgindo da boca do metrô sem parar. Um verdadeiro mar de gente! Nunca vi uma multidão tão gigantesca! Parecia não ter fim!

Começamos a marchar, eu estava com os promotores de saúde que estou acompanhando e também com um pessoal do ministério de saúde, que saíram como bloco. As Parroquias (bairros) eram representadas pelos seus conselhos comunitários, entidades, etc., dando um tom avermelhado às ruas da cidade. O azul e o amarelo acompanhavam o vermelho dominante e conformavam uns 90% dos uniformes das pessoas. No andar da marcha, mais e mais pessoas seguiam, juntando-se ao enorme conglomerado. Em todas as esquinas eram rios de gente desaguando vermelho à já densa passeata.

Uma avenida de três vias de cada lado foi tomada pela multidão. Foram doze quilômetros de caminhada, com carros de som, com paradas para tomar cerveja e com alguns palcos no percurso. Uma festa! Não fosse regada a muita salsa e gritos de apoio ao presidente e ao processo, diria que era o maior carnaval que já vi na minha vida! Chávez para cá, Chávez para lá, e todos caminhando para encontrar seu comandante. No seu auge, devem haver sido tomados uns bons oito quilômetros da via!

Falaram em um, dois, três milhões de pessoas... Não importa o número, mas o fato é que era muita gente.

O destino final foi a maior avenida do centro da cidade, a Avenida Bolívar, onde um palco gigantesco foi montado para o discurso do presidente. Depois de algumas horas caminhando, festando e gritando, o povo chega cansado e não são todos os que resistem a um discurso de horas.

Já no caminho de casa, vejo que, definitivamente, não sou o único que não resistiu ao sol e ao dia de caminhada. A multidão toma novamente o metrô. Dessa vez não há gritos de guerra, mas a cara das pessoas é tranqüila, como se o dever tivesse sido cumprido. Depois de uns quarenta minutos e dois trechos de metrô (desta vez muito mais curto, já que havia caminhado doze quilômetros), chego novamente em casa e minha anfitriã, que, para minha surpresa, já havia chegado, estava vendo o discurso que eu havia abandonado há quase uma hora e estava sendo transmitido ao vivo e em cadeia nacional. Com a maior tranqüilidade do mundo, ela comenta comigo: “até que você resistiu muito tempo, nós, aqui na Venezuela, participamos da marcha e, se chegamos muito cansados, vamos para casa para ver o discurso do presidente na TV, com mais calma e mais conforto para poder escutar direito. Lá naquela multidão é difícil prestar a atenção devida!”. Lá no Brasil vocês fazem isso também?

Primeiras impressões

06.02.2006
Primeiras impressões de uma vivência na República Bolivariana da Venezuela

Este é o primeiro relato que faço dos muitos que tenho intenção de fazer nestes três meses que pretendo ficar aqui na Venezuela, vivenciando e estudando o processo revolucionário que se iniciou há pouco mais de sete anos neste país.

Ainda não tenho muito claro qual é a cara que esses relatos vão ter. Num primeiro momento, vou tentar uma forma mais narrativa e, na medida que se forem desenrolando as idéias e as vivências, pode ser que isso vá mudando, já que não estou preso a nenhuma forma pré-estabelecida e desde já aceito sugestões e críticas.

Estou há praticamente duas semanas na Venezuela e, tirando que na primeira fiquei praticamente todo o tempo vinculado ao Fórum Social Mundial, posso dizer que ainda não tive tempo para fazer grandes nem precisas análises, até porque como ficarei três meses aqui, não estou em ritmo intensivo.

Pois bem, nestes dias bolivarianos algumas coisas já saltam aos olhos e atraem a atenção... São impressionantes as semelhanças com o Brasil! Falo de Caracas, até porque ainda não rodei por outros pagos. O povo, a cidade, a bagunça, o tumulto, a desordem devidamente ordenada, os ares e os cheiros, o ritmo frenético e alegre ao mesmo tempo, a cor e a mistura de pessoas e diferentes etnias... A primeira impressão é de repulsa e de medo do desconhecido. Não se entende como as coisas funcionam, o ritmo aparentemente é outro, a novidade choca, mas, logo em seguida, dando-se um pouco mais de tempo para que as coisas vão acontecendo e tendo um pouco mais de calma, é como se a vista se amoldasse ao que se vê, uma impressão semelhante a de chegar a um quarto escuro e esperar a vista compreender que naquele recinto há uma luz diferente. É então que a cidade vai se modelando à vista deste observador. Opa! Há mais alegria e solidariedade do que a agressividade primeira poderia apontar. As pessoas são amáveis e, desconsiderando uma formalidade informal, te tratam bem e estão prestes a ajudar. O espanhol, bem, isso é uma outra história! Tenho o espanhol também como língua materna, mas definitivamente o venezuelano é bem diferente do argentino. Difícil de entender quando falam rápido e também é difícil de se fazer entender com o vocabulário que usualmente manejo, mas isso também é coisa que pouco a pouco vou apreendendo - já dei alguns passos importantes.

Por falar em apreender, esse tipo de experiência é uma oportunidade para apreender 24hs por dia! É impressionante o quanto se apreende e se absorve em tão curto espaço de tempo!

A República Bolivariana da Venezuela é definitivamente um outro país depois que foi refundada a nova república, chamada de V República. O que se vive é um processo revolucionário. Um processo revolucionário que se inventa a cada dia e do qual participa ativamente um grande conjunto da população. Se auto-intitulam de uma democracia participativa. Essas definições por nunca terem sido aplicadas, ou poucas vezes aplicadas, ficam no campo do ideário e não se consolidam como conceitos. Mas, para sermos descritivos, aqui na Venezuela se dá o nome de Democracia Participativa a esse processo de participação popular nas coisas do dia a dia, a esse processo tão bonito de construir uma revolução com as próprias mãos, todos – ou quase todos – juntos.

Há um conceito muito interessante que fica permanentemente pairando no ar, que já citei acima, mas que vale a pena enfatizar porque é freqüentemente repedido nos discursos e nas falas. “Hay que invertar el socialismo del siglo XXI”. Vou tentar reproduzir falas que tenho ouvido pelas ruas: “não há modelos prontos; não sabemos como fazer; temos que inventar nosso próprio jeito de fazer; temos que adequar o que já sabemos para aplicá-lo nos objetivos que estamos querendo; apreender com os nossos erros e com os erros da história; inventar a maneira de multiplicar nossa própria força criativa; não podemos tentar reproduzir coisas que já sabemos que não dão certo; literalmente: o inventamos o morimos!” A coisa que complementa esse novo conceito é o fato de se ter muito claro que é “ou socialismo, ou barbárie”, isso porque quando nos colocamos frente a um processo revolucionário é necessário apontar para algum lugar, e se tratando de modelo, a Revolução Bolivariana se coloca como um movimento Anti-Imperialista e Socialista, mas não se propõe a inventar nenhum modelo de socialismo pré-estabelecido ou já posto em prática em qualquer outro canto do mundo. Mas que socialismo? Isso também há que se inventar! Os chamados socialismos reais não são reproduzíveis, nenhum modelo é reproduzível se se quer levar em conta as particularidades de cada lugar.

“A única maneira de acabar com a pobreza é dando poder aos pobres”. Este processo revolucionário tem inventado várias maneiras de efetivamente dar poder aos pobres. Quando, finalmente, depois de vários anos de tentativas de golpes e disputas eleitorais, Chávez chega ao poder liderando o Movimento Quinta República (MVR), se encontram dois enormes problemas na realidade venezuelana. Primeiro é a imensa e monstruosa divida social que se acumulou ao longo dos muitos anos de dependência econômica e política de muitos e muitos governos pelegos e “vende patria”. Segundo, a inércia, corrupção, burocratização, ineficácia e ineficiência da máquina do estado. Qualquer semelhança com a maioria de nossos países Latino-americanos é mera coincidência.

Mas de fato o governo Hugo Chávez é diferente de outros governos ditos de esquerda. Aqui, efetivamente, o projeto foi e está sendo dar poder aos pobres, aos menos favorecidos e àquela parcela da população que historicamente ficou à margem do protagonismo político e reprodutivo do país. Como isso está sendo feito? Acho que esta é uma das coisas mais interessantes que existem nesse processo. Primeiro, a viabilização econômica do projeto, vale a pena ser dito, vem diretamente dos monstruosos lucros que a indústria petroleira vem dando para a nação – principalmente depois que a PDVSA foi recolocada nas mãos do Estado. A grana vem diretamente do petróleo e é administrada pelo gabinete presidencial.

Como falei anteriormente, o Estado Venezuelano era e ainda segue, parcialmente, sendo burocratizado, corrupto e ineficiente. Não é possível contar com as instituições tradicionais para gerir um processo revolucionário, ou seja, mesmo que se aumentasse, por exemplo, o orçamento do Ministério da Saúde em 15 vezes, a eficiência dele não seria suficiente para organizar uma revolução sanitária como a que se vive atualmente. A saída foi a canalização de esforços e dinheiro para a concretização e efetivação de Misiones. O que são essas missões? Nada mais são do que projetos e programas paralelos à instituição formal do Estado que contam com objetivos claros e condizentes com as necessidades sociais e reais da nação.

Vou tentar ser um pouco mais claro, usando o exemplo da saúde. Mas, antes disso, é necessário dizer que nada se fez sem a participação das comunidades e escutando as comunidades. Pois, mesmo que a dívida social seja bem clara e fácil de reconhecer, quando, como e onde foram demandas das diversas comunidades, descobertas através de vários instrumentos de escuta que tentarei resgatar em um outro momento. Vamos à saúde. Não seria de se admirar que, nas condições que o país foi encontrado pelo atual governo, uma das demandas e necessidades mais estruturais era a falta de atenção à saúde e todo seu contexto sanitário. Como criar, inventar uma solução para esse problema? Como dito anteriormente, o Ministério da Saúde, por mais “descabeçado” que possa haver sido com o novo processo, não possuía estrutura para dar conta dessa demanda. Por outro lado, não havia tempo de reconstruir a máquina do Estado para então atender a estas demandas. Foi criada então a Misión Barrio Adentro, cujo nome exemplifica muito bem de que se trata. Nos bairros mais carentes, nas comunidades menos favorecidas, são criados módulos de atenção primária, implementados de acordo com as demandas das organizações comunitárias e com a ajuda de médicos cubanos (que, diga-se de passagem, estão criando muitos problemas, mas isso também é motivo para outros relatos). Eles vêm com a designação de “missão humanitária” – o que resolve o problema do exercício ilegal da medicina – e se instalam nas comunidades e bairros de todo o país. Hoje existem mais de vinte mil médicos cubanos atuando na Venezuela, pagos diretamente pelo gabinete do presidente com verba petroleira! O impacto é imediato! Dívida social encarada extra-institucionalmente, gerando impacto concreto na vida das pessoas e fazendo com que os pobres ganhem poder. Hoje já se estão efetivando as Misiones Barrio Adentro II e III que consistem na concretização de todo o sistema de saúde.

Obviamente que a saúde, individualmente, não resolve muita coisa, mas a Misión Barrio Adentro, Misión Ribas, Misión, Robinson, Misión Sucre, Misión Mercal, Misión Vuelvan Caras, Misión Cultura, entre tantas e tantas outras (citei as que me fui lembrando…), atuam diretamente no dia-a-dia das pessoas nas diversas frentes necessárias, como educação, moradia, alimentação, etc. Assim, o conjunto do projeto revolucionário se torna, sim, uma forma efetiva de distribuição de poder.

Dessa maneira, a instituição tradicional foi a que teve que se moldar à nova maneira de fazer das missões. De forma lenta e paulatina, as missões começam a conversar com suas instituições correspondentes e, aos poucos, a máquina estatal vai se transformando. Muito presente nos discursos é a direção do combate à corrupção, que se encontra na forma de reproduzir o fazer no dia-a dia das representações que estão mais distantes do poder central, como é o caso dos CMAI (Comitê Municipal de Atividades Integrais), uma espécie de sub-prefeituras extremamente pulverizadas nos diversos bairros. As pessoas que lá trabalham incorporam o discurso e tentam fazer diferente. É muito interessante ver isso acontecer no dia-a-dia! Ainda estou em processo de moldar a lente, mas certamente será uma vivência extremamente rica!

Para concluir este primeiro relato, vou, breve e resumidamente, falar um pouco da relação do povo com o seu presidente, Hugo Chávez Frias. Admiração, confiança, respeito, devoção, mais confiança e muita tietagem são algumas das coisas que se estabelecem nessa relação. Outro dia, vinha voltando tarde da noite, depois de uma reunião na prefeitura, e, numas barraquinhas de cachorro quente (que aqui é sem molho de tomate!), vi uma situação inusitada para mim. Dois televisores ligados, num deles passando um jogo de beisebol da Liga do Caribe, o equivalente a Libertadores no Futebol, jogando Los Leones de Caracas e um time de Porto Rico, acho (sei que era um jogo importante como fui saber mais tarde), e, no outro televisor, o presidente Hugo Chávez fazendo um pronunciamento qualquer. Pois bem - quem não acreditar poder vir e conferir! - uma pequena multidão se reunia ao redor da TV em que o Chávez falava e, na outra, uns poucos gatos pingados! Pasmem, é relato verdadeiro! Para não perder a incrível oportunidade, decidi jantar um perrito caliente e ficar observando aquela situação que, para mim, era verdadeiramente incrível. O discurso, repetindo coisas que já tinha escutado em outros dois discursos dele, acabou sincronizado com o término do meu lanche, peguei minhas coisas e fui me dirigindo para a parada mais próxima do metro. Tanto no caminho, como na longa viagem de volta para “casa”, fui escutando as pessoas conversando: “yo amo mi president;, com este si que triunfaremos; quien más haria lo que el hace?; tenemos que ir por los diez millones (em alusão ao objetivo de alcançar dez milhões de votos para este ano nas eleições presidenciais); etc., etc.”. O que vejo é um cara que, apesar de fazer o papel de líder carismático e com direito a muita tietagem, representa para as pessoas a mudança que elas estão vivendo na realidade, no seu dia-a-dia! (Um pouco mais a respeito dessa relação vou escrever no texto sobre a marcha que participei no último sábado, quatro de fevereiro).

Além desse texto contando a vivência da marcha de 2 milhões de pessoas, que pretendo escrever ainda hoje, prometo em breve escrever mais delongadamente e com maior grau de detalhes sobre alguns temas como: saúde e revolução sanitária, tietagem chavista, inclusão social, internacionalismo, socialismo do século XXI e sua implementação na Venezuela, desenvolvimento endógeno e outras coisas que irão surgindo.

Gostaria de pedir que comentassem e criticassem este e os outros textos. Preferencialmente, gostaria de apontassem os erros e incoerências, potenciais de melhora e caminhos investigativos a seguir...