21.2.06

Revolução como projeto – Revolução como valor

"Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros". Ernesto Guevara de la Serna


Vivenciando e estudando o projeto revolucionário em curso na Venezuela é inevitável fazer análises de quais são as suas peculiaridade, as suas semelhanças e as suas diferenças com o nosso dia-a-dia no Brasil, ou em outros paises latino-americanos. Seja na política, na participação popular, na cultura, na vida das pessoas, etc.

Na Venezuela, está explicitamente acontecendo uma revolução. Mas o que é uma revolução? Como o povo venezuelano significa um processo revolucionário? Que definições poderíamos aplicar ao que se vive no cotidiano na República Bolivariana da Venezuela? Perguntas que surgem naturalmente, mas que são de difícil resposta – certamente as diferentes pessoas que possam estar vivendo ou conhecendo esse processo terão respostas também diferentes para o que está acontecendo neste país e para conceituar um processo revolucionário.

Arriscarei abordar o tema usando como base para isso a observação e o significado que este processo está imprimindo neste que aqui escreve.

A necessidade de transformar algo existe quando uma determinada situação, ou coisa, não está mais servindo para um determinado fim. Poderíamos aplicar isso desde uma simples mudança de móveis em casa, até a revolução de uma sociedade. O fato é que, se algo precisa ser transformado, é porque da maneira em que se encontra não é útil, não é “bom”.

Revolução poderia ser entendida como a possibilidade de transformar algo num pequeno espaço de tempo. Rapidamente e drasticamente. Ao contrário de uma reforma onde a transformação, por radical que seja, se faz de forma progressiva, não há processos rápidos ou drásticos, muito menos dramáticos. Entretanto, mesmo do objeto da transformação ser uma realidade concreta, o conceito também engloba os atores envolvidos no processo. Então, a diferença não é somente no processo em si, mas, também e sobretudo, na maneira como as pessoas envolvidas lidam com essa transformação, a maneira como se encara um processo desses.

Na Venezuela, o que está em curso é uma revolução. Estão ocorrendo mudanças dramáticas e extremamente profundas na sociedade. Desde a economia, passando por transformações sociais, incluindo o Estado, enfim, tudo é foco de transformações e mudanças – o que não é o objetivo explicitar neste texto. A revolução traz, para as pessoas que nela vivem, a possibilidade do protagonismo em uma transformação, a possibilidade de trabalhar em um determinado caminho e com um determinado objetivo; e, através deste fato, abrir a possibilidade de colocar atores sociais e políticos em ação, permitindo que trabalhem, que se movimentem, terminando com a inércia de se manterem imóveis e aceitando o que está imposto num determinado tempo e espaço. A sociedade venezuelana é uma sociedade que está imersa, encarando e trabalhando em um processo, que tem a revolução como um projeto e que usa essa denominação para atribuir valor ao que é feito.

O Projeto Revolucionário é peça fundamental para o engajamento e participação das pessoas como atores sociais e políticos. Através desse projeto maior, a revolução se transforma no projeto pelo qual se trabalha para transformar profundamente o país. Projeto geral que tem os objetivos de diminuir a diferença social entre as pessoas, distribuir riqueza, etc. E por ser um projeto geral no qual há muitas pessoas ativas e envolvidas, ele serve para trabalhar com duas grandes dificuldades que ocorrem na mobilização de um determinado grupo social: a falta de motivação para o engajamento no processo de trabalho e a dificuldade de resolver impasses naturais ao processo.

As pessoas, ao saberem que existe um projeto grande, A Revolução, sabem automaticamente que elas não estão sozinhas na labor de mudar o país, que não precisam fazer tudo, que não precisam “carregar o mundo nas costas”. Como é um projeto grande e há um grande número de pessoas envolvidas, muitas frentes de trabalho estão abertas. Além disso, como o conjunto da sociedade está participando, é mais fácil a participação do ator social para um determinado trabalho, já que cada um sabe que o outro também está trabalhando e que, por pouco que se faça, se está colaborando com todo um projeto que está em andamento.

O outro lado da mesma moeda é que, ao existir um projeto maior, um projeto que unifique o conjunto dos projetos menores, e que, ao mesmo tempo é diretor destes, no momento em que surge uma determinada dificuldade, impasse ou divergência, as referências para resolver este problema já estão dadas. O objetivo maior é concreto e palpável. Existindo uma referência de quais são os grandes objetivos e de onde se quer chegar, é mais simples resolver problemas e obter consensos. Existe uma referência superior e concreta ao “achismo” de cada ator.

Isso transforma o Projeto Revolucionário em um unificador de caminhos e em um conglomerador de pessoas.

No mesmo sentido, a Revolução se transforma em uma referência para além do projeto, se transforma em um valor que recebe depósitos de esperanças e vontades. Cria-se um ente revolucionário, um processo no qual, ou se está dentro, ou se está fora. Não há meios termos. Mesmo que não se concorde com a maneira como se está conduzindo o processo, há abertura para as pessoas que não concordam com os meios proporem caminhos diferentes. Mas, claro, é necessário que os valores e os rumos sejam os da mudança, os da Revolução.

Analisar isso do ponto de vista da disputa de classes é muito interessante. No momento atual, Chávez é a personificação do processo e dos valores revolucionários, contando com mais de setenta por cento de aprovação. Quem não aprova, pertence de maneira geral a uma classe média-alta e classe alta que estão vendo que o processo ameaça os confortos e as regalias que a antiga IV república sempre promoveu. Então, como não lhes interessam as mudanças, são contra o valor revolucionário. O que é justificado e aceitável do ponto de vista da compreensão da sua maneira de ver o mundo. Por outro lado, as classes populares estão apoiando maciçamente o processo. Porque mesmo que não concordem com a maneira como está sendo conduzido, coisa que é comum nas críticas, não podem negar a concretude de que suas vidas melhoraram. E, fundamentalmente, existe espaço para o protagonismo e para participação, existe espaço para se propor outras maneiras de fazer. Ou seja, a direção do processo, a direção na qual a revolução aponta é inegavelmente um valor que é compartilhado pela enorme maioria da população. Seus caminhos e trilhos é que estão em disputa, mas não seus valores.

Assim o Projeto Revolucionário é a concretização operacional desse valor.

Em outros paises latino-americanos onde não temos um Projeto Revolucionário explícito, tudo o que foi falado acima praticamente não existe. Não há união ao redor de um projeto, porque esse projeto não existe como tal, os valores revolucionários ficam restringidos nas individualidades e nas singularidades de cada um dos atores. Como não existe um mote unificador da direção, a dificuldade para resolver problemas, impasses e disputas é infinita. Cada um tem a sua opinião e estas opiniões não se unem por nenhum lugar. Não há motivação generalizada para trabalhar e para sair da inércia do imobilismo, porque não há concretamente pelo que lutar. A sociedade permanece quebrantada e extremamente subdividida, não há união na luta social, e, essa divisão, nos enfraquece permanentemente. É só olhar os processos eleitorais, onde é comum a dita esquerda aparecer freqüentemente dividida na figura de muitos candidatos.

É necessária a união da luta; é necessária a união do projeto; é necessária a unificação dos valores; é necessária A Revolução!

1 Comments:

Blogger wilson cunha junior said...

Perfeita sua análise sobre a esquerda brasileira. Será que um dia teremos uma unidade?

11.6.07  

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