Um, dois, três milhões?
Não se sabe ao certo, o fato é que foi muita gente...
Há uns dias fiquei sabendo que aconteceria uma passeata, aqui chamada marcha, em comemoração ao aniversário de sete anos do governo revolucionário de Hugo Chávez. Quando recebi a notícia estava no ato oficial dessa mesma comemoração. Confesso que já tinha a intenção de participar de uma marcha, mas não atribuí, num primeiro momento, a importância devida a esta em particular.
Chegado o dia, quarto de fevereiro de 2006, me encontrei, como havia combinado anteriormente com José, um promotor social, na estação do metrô que fica em frente de “casa”. Lá chegando, um grupo de umas vinte pessoas de vermelho se aglomeravam esperando o restante do grupo chegar. Entre conversas e conversas, fui interrogando sobre qual era a motivação para tal disposição de marchar numa manhã gelada de um sábado ensolarado. Todos eram chavistas, cada um com uma camiseta diferente, mas todas vermelhas e todas de algum momento histórico do passado recente ou de algum movimento governista. Tietagem? Foi o que primeiro pensei. Mas fiquei com isso na cabeça...
Conversando com aquelas pessoas, fui entendendo que elas estavam lá para participar de uma festa, de uma grande festa popular, de um encontro de pessoas. Pessoas que estão construindo um país diferente, diferente do que haviam vivido no passado recente. Estavam lá para participar da defesa de um novo que não querem que desapareça. E tudo isso é simbolizado na figura de uma pessoa: Hugo Chávez Frias.
Fiz algumas gravações, iniciando a captação de imagens para a confecção de um ou vários curtas documentários. Neste momento transbordaram as manifestações pró Chávez, quase num frenesi como de uma debutante falando sobre seu ator preferido, porém em vez de “como é lindo!” e coisas parecidas, os argumentos eram os logros da revolução, contando vantagem sobre a erradicação do analfabetismo (Venezuela é o segundo país do continente, depois de cuba, a ser declarado território livre do analfabetismo pela Unesco), sobre a construção dos programas de saúde, etc.
Quando entramos no metrô, que diga-se de passagem foi gratuito naquele dia, começaram os gritos de guerra, tal qual uma torcida de futebol, entoando “Uh! Ah! Chávez no se vá”, “así, así, así es que se gobierna”, entre outros tantos. O trem inteiro cantando! A viagem até o ponto da concentração foi feita em dois trechos, um dos bairros populares para o centro e o outro no eixo central da cidade. No primeiro trecho, os chavistas eram “hegemônicos”, mas, no segundo, havia vários escualidos (assim são chamados os opositores a Chávez, geralmente pertencentes à classe media alta e classe alta), um contraste bem interessante de perceber: a cara de acuados e um certo temor de ver o “seu” território tomado pelo povo. De fato, não é comum ver num sábado de manhã uma verdadeira multidão lotando os metrôs...
A sensação que aquela situação passava era a de sentir o povo tomando conta de tudo, ocupando seu espaço! A quebra da barreira imaginária que é a geografia excludente da cidade!
Chegando no ponto de encontro, caí na real da dimensão dos futuros acontecimentos. Muita gente! Muita! Pessoas que de maneira geral traziam uma vibração e uma empolgação que seria necessário uma cegueira sentimental para não perceber. A rua em frente à estação do metrô já estava tomada, não passavam mais carros e a multidão se encaminhava, seguindo seu destino. Passavam e passam, surgiam das ruas que desciam os morros, vinham de todas as esquinas, de todas as partes, continuavam surgindo da boca do metrô sem parar. Um verdadeiro mar de gente! Nunca vi uma multidão tão gigantesca! Parecia não ter fim!
Começamos a marchar, eu estava com os promotores de saúde que estou acompanhando e também com um pessoal do ministério de saúde, que saíram como bloco. As Parroquias (bairros) eram representadas pelos seus conselhos comunitários, entidades, etc., dando um tom avermelhado às ruas da cidade. O azul e o amarelo acompanhavam o vermelho dominante e conformavam uns 90% dos uniformes das pessoas. No andar da marcha, mais e mais pessoas seguiam, juntando-se ao enorme conglomerado. Em todas as esquinas eram rios de gente desaguando vermelho à já densa passeata.
Uma avenida de três vias de cada lado foi tomada pela multidão. Foram doze quilômetros de caminhada, com carros de som, com paradas para tomar cerveja e com alguns palcos no percurso. Uma festa! Não fosse regada a muita salsa e gritos de apoio ao presidente e ao processo, diria que era o maior carnaval que já vi na minha vida! Chávez para cá, Chávez para lá, e todos caminhando para encontrar seu comandante. No seu auge, devem haver sido tomados uns bons oito quilômetros da via!
Falaram em um, dois, três milhões de pessoas... Não importa o número, mas o fato é que era muita gente.
O destino final foi a maior avenida do centro da cidade, a Avenida Bolívar, onde um palco gigantesco foi montado para o discurso do presidente. Depois de algumas horas caminhando, festando e gritando, o povo chega cansado e não são todos os que resistem a um discurso de horas.
Já no caminho de casa, vejo que, definitivamente, não sou o único que não resistiu ao sol e ao dia de caminhada. A multidão toma novamente o metrô. Dessa vez não há gritos de guerra, mas a cara das pessoas é tranqüila, como se o dever tivesse sido cumprido. Depois de uns quarenta minutos e dois trechos de metrô (desta vez muito mais curto, já que havia caminhado doze quilômetros), chego novamente em casa e minha anfitriã, que, para minha surpresa, já havia chegado, estava vendo o discurso que eu havia abandonado há quase uma hora e estava sendo transmitido ao vivo e em cadeia nacional. Com a maior tranqüilidade do mundo, ela comenta comigo: “até que você resistiu muito tempo, nós, aqui na Venezuela, participamos da marcha e, se chegamos muito cansados, vamos para casa para ver o discurso do presidente na TV, com mais calma e mais conforto para poder escutar direito. Lá naquela multidão é difícil prestar a atenção devida!”. Lá no Brasil vocês fazem isso também?
Há uns dias fiquei sabendo que aconteceria uma passeata, aqui chamada marcha, em comemoração ao aniversário de sete anos do governo revolucionário de Hugo Chávez. Quando recebi a notícia estava no ato oficial dessa mesma comemoração. Confesso que já tinha a intenção de participar de uma marcha, mas não atribuí, num primeiro momento, a importância devida a esta em particular.
Chegado o dia, quarto de fevereiro de 2006, me encontrei, como havia combinado anteriormente com José, um promotor social, na estação do metrô que fica em frente de “casa”. Lá chegando, um grupo de umas vinte pessoas de vermelho se aglomeravam esperando o restante do grupo chegar. Entre conversas e conversas, fui interrogando sobre qual era a motivação para tal disposição de marchar numa manhã gelada de um sábado ensolarado. Todos eram chavistas, cada um com uma camiseta diferente, mas todas vermelhas e todas de algum momento histórico do passado recente ou de algum movimento governista. Tietagem? Foi o que primeiro pensei. Mas fiquei com isso na cabeça...
Conversando com aquelas pessoas, fui entendendo que elas estavam lá para participar de uma festa, de uma grande festa popular, de um encontro de pessoas. Pessoas que estão construindo um país diferente, diferente do que haviam vivido no passado recente. Estavam lá para participar da defesa de um novo que não querem que desapareça. E tudo isso é simbolizado na figura de uma pessoa: Hugo Chávez Frias.
Fiz algumas gravações, iniciando a captação de imagens para a confecção de um ou vários curtas documentários. Neste momento transbordaram as manifestações pró Chávez, quase num frenesi como de uma debutante falando sobre seu ator preferido, porém em vez de “como é lindo!” e coisas parecidas, os argumentos eram os logros da revolução, contando vantagem sobre a erradicação do analfabetismo (Venezuela é o segundo país do continente, depois de cuba, a ser declarado território livre do analfabetismo pela Unesco), sobre a construção dos programas de saúde, etc.
Quando entramos no metrô, que diga-se de passagem foi gratuito naquele dia, começaram os gritos de guerra, tal qual uma torcida de futebol, entoando “Uh! Ah! Chávez no se vá”, “así, así, así es que se gobierna”, entre outros tantos. O trem inteiro cantando! A viagem até o ponto da concentração foi feita em dois trechos, um dos bairros populares para o centro e o outro no eixo central da cidade. No primeiro trecho, os chavistas eram “hegemônicos”, mas, no segundo, havia vários escualidos (assim são chamados os opositores a Chávez, geralmente pertencentes à classe media alta e classe alta), um contraste bem interessante de perceber: a cara de acuados e um certo temor de ver o “seu” território tomado pelo povo. De fato, não é comum ver num sábado de manhã uma verdadeira multidão lotando os metrôs...
A sensação que aquela situação passava era a de sentir o povo tomando conta de tudo, ocupando seu espaço! A quebra da barreira imaginária que é a geografia excludente da cidade!
Chegando no ponto de encontro, caí na real da dimensão dos futuros acontecimentos. Muita gente! Muita! Pessoas que de maneira geral traziam uma vibração e uma empolgação que seria necessário uma cegueira sentimental para não perceber. A rua em frente à estação do metrô já estava tomada, não passavam mais carros e a multidão se encaminhava, seguindo seu destino. Passavam e passam, surgiam das ruas que desciam os morros, vinham de todas as esquinas, de todas as partes, continuavam surgindo da boca do metrô sem parar. Um verdadeiro mar de gente! Nunca vi uma multidão tão gigantesca! Parecia não ter fim!
Começamos a marchar, eu estava com os promotores de saúde que estou acompanhando e também com um pessoal do ministério de saúde, que saíram como bloco. As Parroquias (bairros) eram representadas pelos seus conselhos comunitários, entidades, etc., dando um tom avermelhado às ruas da cidade. O azul e o amarelo acompanhavam o vermelho dominante e conformavam uns 90% dos uniformes das pessoas. No andar da marcha, mais e mais pessoas seguiam, juntando-se ao enorme conglomerado. Em todas as esquinas eram rios de gente desaguando vermelho à já densa passeata.
Uma avenida de três vias de cada lado foi tomada pela multidão. Foram doze quilômetros de caminhada, com carros de som, com paradas para tomar cerveja e com alguns palcos no percurso. Uma festa! Não fosse regada a muita salsa e gritos de apoio ao presidente e ao processo, diria que era o maior carnaval que já vi na minha vida! Chávez para cá, Chávez para lá, e todos caminhando para encontrar seu comandante. No seu auge, devem haver sido tomados uns bons oito quilômetros da via!
Falaram em um, dois, três milhões de pessoas... Não importa o número, mas o fato é que era muita gente.
O destino final foi a maior avenida do centro da cidade, a Avenida Bolívar, onde um palco gigantesco foi montado para o discurso do presidente. Depois de algumas horas caminhando, festando e gritando, o povo chega cansado e não são todos os que resistem a um discurso de horas.
Já no caminho de casa, vejo que, definitivamente, não sou o único que não resistiu ao sol e ao dia de caminhada. A multidão toma novamente o metrô. Dessa vez não há gritos de guerra, mas a cara das pessoas é tranqüila, como se o dever tivesse sido cumprido. Depois de uns quarenta minutos e dois trechos de metrô (desta vez muito mais curto, já que havia caminhado doze quilômetros), chego novamente em casa e minha anfitriã, que, para minha surpresa, já havia chegado, estava vendo o discurso que eu havia abandonado há quase uma hora e estava sendo transmitido ao vivo e em cadeia nacional. Com a maior tranqüilidade do mundo, ela comenta comigo: “até que você resistiu muito tempo, nós, aqui na Venezuela, participamos da marcha e, se chegamos muito cansados, vamos para casa para ver o discurso do presidente na TV, com mais calma e mais conforto para poder escutar direito. Lá naquela multidão é difícil prestar a atenção devida!”. Lá no Brasil vocês fazem isso também?

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