4.4.06

O Socialismo no Século XXI

“Entre vencer o morir. Necessário es vencer!”
José Felix Ribas

Neste momento, na Venezuela, estão acontecendo várias coisas que chamam a atenção para quem se propõe a pensar um mundo diferente do que temos hoje. Como diriam os bons marxistas, é um excelente local de exposição para vivenciar inúmeras categorias que serviriam para analisar a realidade e para repensar caminhos para o futuro das lutas sociais. Confesso que é uma das coisas que têm me deixado bastante angustiado... Tem tanta coisa para ver e para ficar pensando e analisando que, sabendo disso, parece que tudo faz parte e, quando começo a achar as coisas familiares e corriqueiras, lanço mão da etnografia e tento estranhar o aparentemente óbvio e claro, para lançar novos olhares sobre o tema. Acontece que, não bastasse a quantidade de coisas para ver, ainda ter que re-analisar o que já parece entendido é algo que deixa o “cabra” meio maluco!

Mas tentemos falar um pouco sobre o socialismo do século XXI, ou socialismo para o século XXI, como queiram...

Quando venho para a Venezuela à procura de entender algumas coisas da revolução bolivariana e de todo o processo que vem ocorrendo por estas bandas, trago comigo um olhar de quem não está satisfeito com as coisas como estão. A diferença entre os seres humanos é algo que beira o insuportável, e ainda mais analisando que essa diferença não é fruto de uma vontade divina ou de um simples “ser diferente”. É uma diferença construída ao longo de toda a existência humana, onde a reprodução da vida e a cegueira em relação ao espaço que cada um deve ocupar neste mundo é carregada de individualismo e um “umbigocentrismo”, entre tantas outras coisas, que fazem que nos encontremos na situação caótica que temos hoje. Há uma segunda coisa que para mim é insuportável em relação ao estado das coisas atuais: a destruição da nossa própria casa. Por onde vamos, por onde andamos, há o desrespeito e a destruição do ambiente – ambiente que é nossa casa! Essas duas coisas, ambas construídas historicamente por nós mesmos são coisas que têm que mudar! Muitos sabidos já vêm dizendo há algum tempo: não dá para continuar brincando muito mais, a velocidade de destruição, autodestruição é crescente! Dá quase para dizer que estamos correndo contra o tempo!

Nesse momento, a Venezuela é extremamente interessante para se analisar algumas coisas, porque aqui se está propondo uma mudança real e concreta, e é uma mudança que tem um determinado sentido. Essa mudança se está propondo a partir de um país capitalista e com todos os problemas que nós temos em todos os nossos países da América Latina, do terceiro mundo e porque não (salvando raríssimas exceções) do mundo inteiro: exclusão social, miséria, concentração de renda e terra, poluição, destruição do meio ambiente, falta de saúde, falta de educação, falta de emprego, etc., etc.

Mas qual é o sentido dessa mudança?

Temos que criar uma maneira de substituir o capitalismo por algum outro sistema de relações sócio-político-econômicas. Está mais do que provado que, da maneira que vamos, com o sistema que vamos, não vamos chegar a lugar nenhum. As diferenças entre os seres humanos só crescem e o meio ambiente, cada dia, é mais destruído. Ou acaso alguém já ouviu o Jornal Nacional anunciar alguma vez que a Floresta Amazônica está crescendo? Mas para isso temos que partir do ponto concreto onde nos encontramos, não dá para pensar que o mundo tem que ser diferente para podermos mudá-lo. O mundo que temos que mudar é esse mesmo mundo que vai amanhecer amanhã de manhã, não é outro! Isso é fato! O sentido da mudança então tem que ir num sentido de distanciar-se do capitalismo e tudo o que este sistema produz.

Aqui na Venezuela estão sendo feitas algumas coisas que chamam a atenção, porque vão em outra direção, diferente da que estamos acostumados a ver em outras partes e feitas por outros governos. Essa direção contrária tem algumas características que precisam ser anotadas. Existe efetivamente um movimento de inclusão social, existe um movimento em direção à diminuição das diferenças entre os diferentes seres humanos. Se esse movimento vai dar conta de gerar uma sociedade sem classes é outra história, mas, no concreto do hoje, é um movimento que está diminuindo diferenças. E essas diferenças ainda continuam a diminuir, ou seja, há movimento, um movimento de inclusão social efetivo. Até onde ele pode avançar ou qual a potência dele são perguntas pertinentes.

Outra característica interessante do processo bolivariano é o que se tem chamado desenvolvimento endógeno. Ou seja, desenvolver a economia, a sociedade e o conjunto do país no sentido de dar conta das necessidades que existem na região. Isso é um movimento que se dá em nível micro, meso e macro. É um olhar que orienta desde uma comunidade em um bairro até o conjunto da força produtiva no país. Educar um povo para trabalhar com as suas necessidades, trabalhar essas necessidades com as disponibilidades materiais que se tem regionalmente, desenvolver a ciência e o progresso da região no sentido de casar necessidades e viabilidade de resolução de problemas é o eixo principal no qual opera o dito desenvolvimento endógeno.

Outro dia escutei do presidente do Partido Comunista Venezuelano, numa palestra comemorativa do lançamento do Manifesto Comunista, que existem quatro grandes revoluções necessárias: a revolução política, a revolução econômica, a revolução cultural e a revolução moral, ética e estética. Interessante dispositivo para analisar a situação atual da Venezuela e pensar em um possível Socialismo para o Século XXI.

Essas quatro revoluções não são feitas necessariamente em seqüência, uma após a outra, mas sim todas juntas em uma intensa disputa político-econômico-ideológica. Criar um modelo, uma matriz, para analisar como cada passo dado em um determinado sentido influencia o outro é um complexo exercício e não vou me aventurar nessa direção com medo de cometer algum suicídio teórico. Mas acredito que é um caminho interessante para se pensar as trilhas que vão se conformando em um processo revolucionário.

Interessante analisar as mudanças propostas no processo bolivariano nesses quatro frentes revolucionários...

Politicamente, existe uma grande mudança. Poucos são aos que resta dúvida de que o projeto político da revolução bolivariana é diferente e propõe mudanças importantes. O discurso coerente com a prática é um primeiro sinal dessa mudança. A postura internacional antiimperialista é outro sinal revolucionário na política. O desenvolvimento interno e a política de organização de um bloco regional de poder são outras mostras de que, na política, existe, sim, uma revolução que propõe mudanças em uma outra direção ao que o capitalismo planetário pautaria para um país com as características venezuelanas na América Latina.

Economicamente, também se encontram indicativos de que existem mudanças importantes. Pelo menos no que se refere à macro economia do país. Reconquista da produção petroleira, incentivo à produção cooperativa e reforma agrária são alguns poucos exemplos de que existe uma mudança no planejamento econômico do país.

Aqui abro um parêntesis antes de cursar sobre as revoluções culturais e éticas, porque acho importante uma comparação nesse momento com a revolução cubana. Apesar de todos os problemas que tive com os cubanos nessa estadia na Venezuela, não posso deixar de apontar que aquele povo tem realmente uma outra formação ética, operam com outros valores. Falo de maneira geral, correndo o risco de que as exceções façam o desmentido. Os cubanos provavelmente passaram, durante estes 47 anos de processo revolucionário, por uma revolução cultural e ética no âmago da sociedade. De fato, hoje são pessoas que operam com outros valores aos que estamos acostumados. Valores onde a solidariedade e respeito ao próximo sobressaem a outros valores como o individualismo e egoísmo. Falo isso por experiência própria da convivência que já tive com esse povo. Essas diferenças estão presentes nos seus discursos e nas suas ações. Aceitemos isso como fato, mesmo sabendo as inúmeras incoerências que surgem quando a cultura e ética capitalista entram em contato com a revolução cubana. Esta foi construída nos últimos cinqüenta anos, a partir de uma sociedade fundamentalmente agrária e subdesenvolvida, que pouco ou nenhum contato tinha com as “benesses” do capitalismo. Nesses anos, o bloqueio econômico e a política revolucionária evitaram, em grande medida, o contato dos cubanos com o capitalismo como ele foi se construindo no mundo. Digamos que os cubanos não foram “contaminados” com o valores capitalistas durante todo o processo – fato que hoje em dia já não é mais verdadeiro, mas que durante muito tempo assim o foi. Porém, para o caso em questão, não importa, já que este novo contato é recente. O ponto que quero chegar é que o processo cubano se deu em um determinado momento histórico em que aquela sociedade não tinha experimentado as “coisas boas” do capitalismo. E foi a partir daquela sociedade que se construiu o novo homem cubano.

Por outro lado, é necessário pensar que a ética do homem do século XXI é essencialmente capitalista, e isso determina, fundamentalmente, a maneira como o conjunto da sociedade interage. Se levarmos em conta que essa lógica de relações é a responsável por nutrir o estado atual das coisas no planeta, desde a diferença entre os diferentes homens, até a assassina destruição do meio ambiente; desde a interação entre homens até a maneira como reproduzimos a vida; vemos que é necessário mudar a lógica ética com a qual nos relacionamos. Mas, nesse momento, caímos no grande perigo de um ciclo “ovo x galinha”. Para mudar a sociedade é necessário mudar o homem, pois este constrói essa; e para mudar o homem é necessário mudar a sociedade, já que esta é responsável pela forja desse. Necessário é mudar os dois juntos. Mas onde é que se dá o “ponto de mutação” no qual o ciclo de capitalismo-egoísmo-individualismo se converte em um ciclo de socialismo-solidariedade-coperativismo? Talvez essa seja outra pergunta interessante.

Depois deste grande parêntesis, volto às outras duas revoluções que faltavam.

A Venezuela do começo do século XXI tem um povo totalmente embebido nos “prazeres” capitalistas. Toda a sociedade, inclusive as camadas mais carentes da população vive na lógica destes prazeres. Isso porque, hoje em dia, não existem setores que não se relacionem na lógica capitalista, como existia na cuba de meados do século passado. Ou seja, a concretude do homem que se tem que mudar é diferente. A lógica individualista está muito mais arraigada no povo Venezuelano de hoje, do que na Cuba de 1959.

A partir dessa análise, a revolução cultural e ética é uma tarefa homérica, se comparada com o processo cubano. A disputa que se necessita fazer é totalmente diferente da que necessitava ser feita naquela Cuba de ontem. Hoje, o capitalismo está inacreditavelmente incrustado em todas as relações, em praticamente todos os desejos do homem moderno e consegue agradar na sua lógica de funcionamento até no mais escondido canto do planeta. Uma Coca Cola, um programa de televisão, uma música, a cultura popular de maneira geral, tudo “pertence” à lógica capitalista. Assim, tanto a revolução cultural, como ética, terá que caminhar por trilhos estreitos e difíceis para conseguir desmascarar para o conjunto da população que a lógica dos prazeres tem grande relação com a lógica da submissão e da exclusão. A construção de um novo homem, como diria Che, é uma missão difícil e complexa que não tem receitas e que conta com inúmeros inimigos que atuam todos na mesma lógica e de maneira unificada. Talvez este seja o maior dos desafios: a construção de um novo homem enfrentando esse poder tão forte e unidirecional.

Um socialismo no século XXI terá que trabalhar no sentido dessa construção. Talvez o mais fácil de pensar e idealizar e aplicar é justamente o que já está em caminho no processo bolivariano: revolução política e econômica. Porém a cultural e a moral, ética e estética tem que ser abordadas e encaradas para não termos que repetir aquela histórica frase que Simon Bolívar pronunciou quando chegou ao final de sua vida política: “He arado en el mar”.

A educação como um todo também é uma das grandes apostas da revolução bolivariana. Existe uma investida nas políticas educacionais, desde o processo educacional formal até inovações como a proposta pela Missión Cultura que se propõe a formar novos atores sócio-políticos que trabalharão como promotores culturais. Tudo isso certamente trabalhará para a formação desse novo homem. Porém todo este novo grande processo não poderá ser avaliado a curto prazo, porque as repercussões dele só serão vistas com o passar dos anos e com as seqüência das gerações. Estas, possivelmente, são as revoluções que mais tardarão em aparecer.

Entretanto, alguns sinais de mudança já podem ser vistos. A grande participação comunitária, o entusiasmo com o processo de grande parte da população, a aceitação das novas políticas, são alguns sinais que podem ser tomados com indicativos que a transformação começa a acontecer. Acredito que a avaliação deste processo é um dos maiores desafios que se apresentam hoje para saber se os caminhos que estão sendo percorridos estão “certos” ou não. Outra homérica tarefa!

A forma que o socialismo terá que assumir no século XXI dependerá dos caminhos adotados pelos atores que, envolvidos no processo, se proponham a transformar as coisas como estão e proponham novos rumos para o mundo. O processo bolivariano está sendo ponta de lança e vai referenciando os caminhos do possível. Inclusão social, desenvolvimento endógeno, novas políticas educacionais, muito está sendo feito, muito há que aprender com o que está sendo feito por estas paisagens do mundo e muito ainda tem que ser inventado ou re-inventado. Sendo necessário transformar, mudar, revolucionar as coisas da forma como estão, esta tarefa é posta para nós – todos aqueles que estão vivos e que concordam com essa premissa. Nas transformações para fora, sociedade, e, para dentro, nós mesmos, há um imenso, tortuoso e incerto caminho para percorrer. Todos, absolutamente todos, que concordem com isso, até aqueles que acham que o seu momento já passou, são necessários neste momento. Se navegar é preciso, inventar e estudar é mais preciso ainda!

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

E aí Esteban, achei muito instrutivo o texto e nos aponta que realmente devemos inovar "nossa" postura diante de valores tão discrepantes com a realidade em que vivemos, mas que insistimos por força da natureza do capitalismo em mantê-los.
Abraços
gisa

13.5.06  

Postar um comentário

<< Home